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Léo Rosa de Andrade *   Luc Ferry, filósofo e homem público francês, em Os cinco sentidos da vida humana apresenta as respostas que a História inventou para providenciar o que seria a vida boa, ou a vida harmonios...

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Sobre a necessidade da intimidade amorosa

Publicado por: Editor
20/01/2020 02:16 PM
Courtesy Pixabay
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Léo Rosa de Andrade *

 


Luc Ferry, filósofo e homem público francês, em Os cinco sentidos da vida humana apresenta as respostas que a História inventou para providenciar o que seria a vida boa, ou a vida harmoniosa, ou a vida com qualidade. Eis um rol esforçado em oferecer sentido à existência.

 

A primeira advém da Grécia antiga: a vida que conjugue a harmonia de si com a harmonia do Cosmos. Ao humano caberia identificar seu lugar nessa Eternidade ordenada e nela inserir-se. A segunda é a proposta das religiões monoteístas. Essa compreensão solicita submissão a um deus que seria o caminho, a verdade e a própria vida. A terceira propõe que o humano se harmonize com a humanidade: o meu espaço de vida articulado com o espaço de vida do outro. A quarta é estar em conciliação consigo mesmo: amar-se e se bastar.

 

Na avaliação de Ferry, a primeira hipótese nos deixa vinculado a algo demasiado exterior ao humano; a segunda já não tem um deus humano, pois a humanidade desprendeu-se do deus que inventou; a terceira é demasiado humana; a quarta, mais que demais humana.

 

A quinta possibilidade de estar feliz na vida é formulada pelo próprio filósofo: a harmonia de si com aquelea que amamos ou poderíamos amar: irmandade, amante, companhia, família etc. Eu diria: amar o literalmente próximo supondo que haveria reciprocidade.

 

Faço as minhas contas: a invenção dos telescópios venceu a primeira hipótese: o Universo não é uma ordem perene. Se alguma divindade o criou, não soube rematá-lo. O Cosmos é caos. A segunda, a religiosa, não proveu felicidade nem no tempo em que o divino era propriedade privativa da igreja católica. Hoje, deus está customizado, cada um tem o seu; esfacelado, enfraqueceu-se.

 

Aprecio a terceira hipótese como modo de estar no espaço público: não imagino vida feliz sem harmonia em Sociedade. Esta é a invenção democrática do animal social. A quarta é necessária, mas não suficiente. Amar-se não basta. Somos incompletos, queremos o amor do outro. A “moda” do bastar-se é falsa. Uma coisa é não se suportar só, outra é a (in)suficiência da solidão.

 

Retomo a sugestão de Ferry: haverá vida boa se me harmonizo com aquelesas que me circundam. Desconfio disso, pois os meus circundantes teriam que corresponder à minha vontade. Ora, em tempos narcísicos, temos egos a preservar. Ademais, egos não cabem uns em outros; são indecomponíveis e irredutíveis. Os egos interessados, pois, teriam que “negociar”.

 

Anoto que na vida familiar tradicional o convívio dependia da subsunção da mulher, dos filhos e da amante no homem chefe de família. Dentre outras subalternidades, ao se casar, a esposa tomava como próprio o nome do marido. As ocorrências produtoras de tal subalternação, por suposto, subalternizavam egos. Mas já não se conta com tais circunstâncias sociais e seus efeitos. Como, hoje, impor a alguém o cumprimento de dedicação amorosa?

 

O apego que remanescia na arrumação familiar perene era, sobretudo, amarração material. Após os efeitos feministas na vida doméstica, a mulher, advindo o desgosto afetuoso, pode variar seu endereço. Aboliu-se a função ordenadora “cabeça de casal”. A extinção do “patriarca” deriva da superação do arranjo social que oferecia um modo único de amar: um pacote sólido em que as partes tinham papeis definidos para cumprir e reproduzir.

 

O amor, já mais líquido, está por conta da imaginação inventiva. Uma convivência desejável e possível, ou seja, que possa ser pactuada e cumprida com prazer, há de ser inventada pela ousadia dos interessados. E descabe intransigência; vale o combinado honesto entre pessoas honestas cientes que as conjunturas têm variáveis incontroláveis. Ademais, vontades movem-se.

 

Claro, alguma ansiedade, pois, se é difícil inventar-se a si, inventar-se a dois é uma formidável aventura cotidiana. Novamente, há egos envolvidos. Para as construções afetivas necessárias à vida a dois os egos implicados devem dar-se um denominador comum.

 

Denominador comum nomeado intimidade: há o ego um e o ego dois, cada qual com sua respeitável vida privada. Esses egos, todavia, se não arquitetarem uma intimidade que será o denominador comum de ambos, não conviverão. A intimidade será o local de trânsito consentido de um ego pelo outro. Edito trechos de O cuidado com a intimidade, Café Filosófico com Renato Janine Ribeiro: Alguém da plateia propõe uma questão importante:

“Todos estamos na vida pública por causa da internet. Nesse mundo, a preservação da intimidade é positiva. No relacionamento pessoal é ao contrário. O problema é que as pessoas não conseguem compartilhar sua intimidade no casamento, na relação de amizade e na relação familiar. A gente está vendo o problema inversamente: as pessoas não conseguem estabelecer um relacionamento, um elo, um vínculo que contenha uma intimidade que tem que ser não mais preservada, mas sim, de alguma forma, exposta”.

 

Ribeiro situa o risco de generalização da percepção do afirmado ou da própria afirmação, e pondera: “A ideia de que esteja difícil partilhar a intimidade, ou seja, construir a intimidade a dois, é interessante porque talvez a blindagem, quer dizer, o medo de se expor se torna tão grande que acabamos não nos expondo; acabamos fazendo as coisas nos lugares trocados: a gente abre a intimidade pra quem não deve e fecha a intimidade pra quem deve.

 

Nós estamos numa fase de mudanças intensas e a velocidade dessa mudança é intensificada. Por pior que esteja todo o quadro, essas mudanças intensas representaram um avanço grande na liberdade e na verdade. Nós lidamos mais com a verdade dos relacionamentos, a verdade dos sentimentos do que sociedades anteriores. E nós estamos acostumados ao valor da liberdade mais do que sociedades anteriores, e essas duas coisas, verdade e liberdade, são dificílimas, é dificílimo lidar com a verdade, seja dizer a verdade, seja dizer-se a verdade – às vezes é dificílimo dizer a verdade para si próprio. E a liberdade: reivindicá-la e reconhecê-la é muito difícil.

 

Esses dois pontos cruciais, como nós podemos fazer isso? Como diz o personagem feito por Marcello Mastroianni num momento de Oito e Meio (filme de Federico Fellini, 1963): 'Eu queria poder dizer toda a verdade sem ferir ninguém, sem magoar ninguém'. Talvez seja esse um dos pontos: poder dizer toda a verdade sem que isso cause infelicidade e poder lidar com a liberdade sem que isso acresça infelicidade no mundo”.

 

Ribeiro varia de uma ética da intimidade a uma ética para o mundo. Está muito bem, pois sua resposta não deixou de contemplar a questão levantada. Tema, aliás, aprofundado em outro Café Filosófico com o mesmo filósofo.

 

Simplificar a Vida (editado), apresentação: “Será que nas relações amorosas o excesso de aproximação pode virar um problema? Será que a intimidade (eu diria a privacidade, pois nomeei intimidade o construído pela relação) tem um limite que não pode ser ultrapassado? Renato Janine Ribeiro faz uma análise do filme Closer (Mike Nichols, 2004) para discutir as diferenças entre estar mais perto e estar perto demais da pessoa amada”.

 

“Closer quer dizer mais perto; em português tornou-se Perto Demais. A diferença entre o zoom e o demais é que estar mais perto significa um acesso à intimidade do outro; perto demais é um excesso, significa que de alguma forma nos queimamos. Então, ou a ideia de que estamos nos aproximando talvez seja uma coisa boa, talvez estejamos vendo as pessoas mais de perto, ou talvez estejamos perto demais.

 

Qual a veracidade desses laços? Qual a capacidade de vivê-los? Aparentemente nós temos três possibilidades. O laço se mantém na medida em que ele é falso e se tolera uma certa falsidade ou uma certa ignorância. Não é só a falsidade da mentira, isso o filme não sugere, mas o filme sugere que o laço, para se manter em certos casos, deva partir da aceitação de não querer indagar determinadas coisas.

 

Uma questão interessante: Perto Demais alterna o jogo entre a verdade e a mentira, a verdade e a falsidade, a verdade e a traição, a verdade como surpresa. Outro aspecto, que me pareceu o ponto mais forte do filme, é: e se for possível ter esse contato, se o demais for apenas mais, se perto demais for mais perto, for uma intimidade grande, qual a relação então disso com a verdade?

 

É conhecer, é não ter ilusão e ainda assim gostar e ainda assim se relacionar. Isso eu achei extraordinariamente forte: essa ideia de que seja possível ter um laço que passe por conhecer a verdade sobre o outro, não estar mais fascinado pelo outro, mas ter a condição, com base nisso, sabendo a realidade, de manter esse laço de querer e de apostar muito pela manutenção desse laço.

 

O filme, a lição que se faz, é que se você aproxima muito, você só tem êxito se você chegar a um momento em que você consegue conhecer muito bem a outra pessoa, a pessoa de quem você gosta, reconhecer-lhe todos os defeitos, não ter nenhuma expectativa maior em relação a ela, e ainda assim ser capaz de manter o sentimento e o laço”.

 

Retomo-me: dada a independência tomada pelas mulheres sobraram raros egos dispostos a se dissolver noutros egos para satisfazer expansões egóicas. Então, cada uma é cada uma em sua reserva de vida privada de vida pessoal indevassável. Descabe invasão de privacidade.

 

Agora, a intimidade: construção espontânea que amantes fazem para trânsito de uma pelo outroa. A intimidade é a área de intersecção (teoria do conjunto) onde estão os elementos que, simultaneamente, pertencem a dois ou mais conjuntos. Uma situação em que partes se imbricam e, propositadamente, se enleiam no tanto em que se imbricaram.

 

Essa intimidade é consubstanciada por egos livres que livremente se expõem ao outroa com a liberdade de discorrer com verdade sobre si. Egos que se narram e ao se narrarem aportam recursos afetivos à vida íntima. Retorno ao “alguém” da plateia que indagou Ribeiro: “Uma intimidade que tem que ser não mais preservada, mas sim, de alguma forma, exposta”.

 

Na forma antiga, um ego se anulava em outro. No que proponho, os egos se contam sem limite, para que reciprocamente se saibam sem limite. É que se me sonego no meu me contar não estou todoa na relação, e se minto sobre mim estou falsificadoa na relação. Omitir ou mentir adultera quem omitiu ou adulterou, logo, a convivência mesma sobra adulterada.

 

Quando quem está numa relação é uma contrafação, a realidade é que outra pessoa está nela. Quem verdadeiramente é a pessoa que se frauda na vida em comum? É, claro, um alguém que lhe está ausente. Assim, seja quem seja que não esteja relação afetiva, os afetos dessa relação restam um simulacro. Renato: “O laço se mantém na medida em que ele é falso e se tolera uma certa falsidade ou uma certa ignorância”.

 

Luc Ferry: já fomos seres de um Universo sem tamanho; já inventamos um deus para nos amparar; já apostamos tudo na humanidade a que pertencemos; já tivemos a petulância de acreditar que poderíamos nos bastar a nós mesmos. Nada disso foi bastante. Estamos desde sempre por aí, carentes de alguém que nos ame, de alguém para amar. Buscadores de felicidade.

 

Luc Ferry, hipótese de vida feliz: a harmonia de si com aquelea que amamos ou poderíamos amar. Não, contudo, a meu sentir, sem os pressupostos aventados: privacidade: espaço próprio indevassável; intimidade: espaço comum no qual amantes em harmonia depositam cada qual sua inteireza: “qualidade ou estado daquilo que é inteiro” (Houaiss); inteiro: “com todas as suas partes; a que não falta nada; completo, total” (Houaiss).


*Léo Rosa de Andrade

Doutor em Direito pela UFSC.

Psicólogo e Jornalista.

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