O que dizem, o que fazem. Coluna Carlos Brickmann

Publicado por: Editor
31/08/2022 05:18 AM
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Cortesia Editorial Pixabay
Cortesia Editorial Pixabay

Por Carlos Brickmann

Perguntem a qualquer dos participantes do debate quem foi o vencedor. Cada um garantirá, com firmeza, que foi ele. Ninguém admitirá que não foi tão bem assim, ninguém fará autocrítica. E não adianta pesquisar: sempre a pesquisa indicará que o eleitor de cada candidato o considera vitorioso.


Mas, se não há maneira objetiva de indicar quem ganhou, há indícios mais que suficientes para saber quem perdeu. A reação das equipes de campanha é imediata e as providências são tomadas com a urgência possível. Vejamos, por exemplo, a reação das equipes de Lula e Bolsonaro. Ambas resolveram restringir ao máximo a participação nos próximos debates. Lula pretende ir somente a mais um, o da Rede Globo.


Dizem que o tema da corrupção será levantado em todos eles e o pessoal da campanha prefere que o candidato aborde o assunto só em redes sociais e entrevistas – menos audiência, menos repercussão. Não é bem assim: Lula, num dia ruim, estava longe de sua fama de debatedor. A equipe de Bolsonaro se preocupa com seus arroubos, Ele usa o tempo de que dispõe para atacar “a mídia” e repórteres como Vera Magalhães - ótima jornalista, mas que não provoca emoções no eleitor que o levem a preferir o presidente. O fato é que Bolsonaro parecia irritado quando o confrontavam, mexia-se sem parar, envolveu-se na política interna de outros países – outro tema que não emociona muita gente.


Bolsonaro só irá ao debate da Globo por medo do significado da cadeira vazia.


A grande evidência
E há ainda um indício fatal de que a candidatura de Bolsonaro está longe do sucesso: o marqueteiro da campanha, Duda Lima, próximo ao presidente do partido de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto, não foi ao debate. Apareceu outro, ligado à ala ideológica do bolsonarismo, que abomina o Centrão, mas não pode fazer nada porque sem o Centrão o governo não anda: é Sérgio Lima. Não se discute aqui a qualidade do trabalho de ambos, mas o fato de o Centrão não ter enviado seu homem de marketing para o debate indica o suficiente: Bolsonaro e o Centrão estão afastados, ou se afastando. Como o Centrão não larga o poder, talvez esteja trocando o poder atual pelo próximo.


Os favoritos
Em resumo, os dois favoritos foram mal. Quem apareceu bem foram Ciro, Simone e Soraya. Ciro fala bem, é experiente em debates, não foi surpresa: onde ele costuma dizer coisas difíceis de explicar é em entrevistas. Soraya mostrou ousadia e coragem e disse a Bolsonaro aquilo que Lula não disse. E Simone, que já vinha aparecendo bem, confirmou sua boa imagem, batendo em Bolsonaro e dizendo que não tem medo de suas ameaças.


As duas, Soraya e Simone, tiveram ainda a chance extra (que aproveitaram) de defender as mulheres, citando os inúmeros casos em que Bolsonaro atacou repórteres por serem mulheres e defendeu teses como as de que mulheres devem mesmo ganhar menos quando desempenham o mesmo cargo que colegas homens.


Juca já previa...
Num bom artigo, o colunista Juca Kfouri disse, no UOL, que Lula perdeu a chance de ouro de atacar Bolsonaro por corrupção. Quando Bolsonaro, na primeira pergunta a Lula, perguntou sobre casos de corrupção, Lula deu uma resposta burocrática – o que é imperdoável, já que até as garrafinhas de água mineral do estúdio já sabiam que esse tema seria abordado.


Juca escreveu que Lula deveria ter respondido algo como “Bolsonaro, e você vem falar nisso? Você com as rachadinhas, as rachadinhas dos filhos, o Queiroz, todos os casos da vacina?” – e daí por diante. Pois o Juca escreveu num dia; e no dia seguinte estourou o caso da compra de imóveis pela família Bolsonaro. De 1990 até hoje, como comprova reportagem no UOL de Thiago Herdy e Juliana dal Piva, jornalistas muito bons, foram comprados 107 imóveis. Sim, 107 imóveis em 32 anos. Ou R$ 19,5 milhões em valor histórico. Corrigidos pelo IPCA, R$ 25,6 milhões. Os salários no Legislativo devem ser ótimos!


...mas havia mais!
Desses 107, houve 51 com pagamento em dinheiro vivo. Isso não é ilegal: dinheiro vivo é moeda de curso corrente no país e de uso forçado. Mas é estranho. Uma comparação: digamos que alguém ande na rua com um facão nas mãos. Não, não é ilegal. Digamos que o facão esteja pingando sangue. Não, não é ilegal: o portador do facão pode ter ido matar alguns frangos para ajudar no churrasco do vizinho. Digamos que a tal pessoa tenha uma tatuagem no braço com uma caveira e dois ossos cruzados. Não, não é ilegal. Tatuagem, seja do que for, está dentro da lei.


Mas o caro leitor preferiria ou não atravessar a rua e ficar longe do facão?


Que maldade!
Bolsonaro não quis falar sobre o tema imobiliário aos repórteres Thiago Herdy e Juliana dal Piva. O colunista Chico Alves, também do UOL, estranha essa posição do presidente da República, justo ele, que sempre citou o versículo bíblico “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará

 

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